A história dos paranaenses Leandro e Maurício é marcada por respeito mútuo, rivalidade zero e foco na entrega além do prometido. Esse é o motor do app “Autonomoz”
A história dos paranaenses Leandro e Maurício Dias de Farias é movida por alinhamento, confiança e zero disputa interna. Sem derrapagens de ego ou disputas por espaço, os irmãos seguem na mesma pista há mais de duas décadas, com foco em performance, entrega acima do prometido e visão de longo prazo. Esse conjunto é o verdadeiro motor da Autonomoz, plataforma de mobilidade corporativa que conecta empresas a motoristas parceiros por meio de tecnologia.
A trajetória começa em Cuiabá (MT), e percorre estradas improváveis até chegar a operações de transporte corporativo de alta complexidade. Ao longo do caminho, os irmãos aprenderam a trocar marchas em momentos de crise, a manter o controle mesmo em terrenos instáveis e, sobretudo, a ler o mapa antes de acelerar. O resultado é um negócio sólido, construído com decisões difíceis, resiliência e atenção constante às curvas do mercado.
Desde cedo, Leandro e Maurício já demonstravam inquietação. “Desde moleque eu queria ser empresário”, lembra Maurício. O combustível vinha de casa: pai, avós e outros familiares sempre estiveram ligados ao empreendedorismo, especialmente no setor rodoviário e no comércio. Mas foi fora do Brasil que essa vocação ganhou tração e passou por seu primeiro teste de resistência.
Um ano que mudou a rota
No início dos anos 2000, os irmãos decidiram passar uma temporada nos Estados Unidos, país que eles definem como a Meca do empreendedorismo. Não houve glamour nem pista livre. “Lavamos carro, fomos manobristas e até garçom. Fizemos de tudo para ganhar dinheiro”, conta Maurício. A experiência foi dura, mas funcionou como escola prática — daquelas que exigem braço firme na direção.
Leandro destaca o impacto cultural daquela vivência. “Eu admiro muito a cultura americana de fazer negócios. Se você se destaca, tem recompensa pelo que faz. Lá, o empresário é aplaudido. Aqui, muitas vezes, ele é criticado.” Essa lógica de meritocracia e respeito ao risco passou a orientar as decisões que viriam depois.
O retorno ao Brasil, em 2001, foi acelerado pelo temor gerado pelos atentados de 11 de setembro. “Se não fosse isso, a gente não teria voltado. Nossa mãe ficou muito preocupada”, relembra Leandro. E o que parecia uma freada brusca acabou sendo apenas uma parada estratégica antes de uma longa jornada empreendedora.
Primeiras engrenagens e divisão de papéis
O primeiro projeto veio em 2006, quando Maurício iniciou um negócio de transporte escolar em Cuiabá, vencendo uma licitação para atender a área rural. Leandro ainda empreendia por outra pista, atuando com marketing digital, mas já apoiava o irmão em manobras pontuais.
A união definitiva aconteceu alguns anos depois, após a crise do subprime, em 2008, que afetou os negócios de Leandro em Curitiba. “Quando isso passou, surgiu a oportunidade na locação de veículos. Foi quando integrei de vez a operação”, afirma. A partir daí, as funções ficaram bem distribuídas, como em uma equipe de rali bem ajustada: Leandro assumiu a condução de toda a operação nas pontas, com a responsabilidade de manter a eficiência de todas as atividades. Já Maurício ficou com o backoffice, administrativo e o financeiro.
Estradas difíceis, decisões firmes
A expansão levou os irmãos a desafios que poucos aceitariam enfrentar. Contratos com grandes construtoras abriram caminho para o transporte de trabalhadores em obras de hidrelétricas no Mato Grosso e em Rondônia. “No meio do bioma amazônico, numa cidade desconhecida, com pouca infraestrutura. Isso exigiu muita coragem e determinação”, lembra Leandro.
Tudo começou de forma bastante difícil. “Compramos ônibus de massa falida, ativos de terceira mão, e colocamos para rodar”, conta Maurício. Aos poucos, a frota foi sendo renovada até atingir padrão zero quilômetro e serviços premium. Os próprios irmãos assumiam funções operacionais. “Já dirigi ônibus, levei veículo para oficina, fiz de tudo”, relembra Maurício. Em Porto Velho, quando nosso abastecedor do turno noturno faltou e não havia ninguém para fazer o trabalho, Leandro e o gerente operacional Odair, que continua na empresa até hoje, foram para a linha de frente abastecer a frota. “Nossa operação era 24 horas. Se alguém falhava, a gente assumia.”
Crises, desvios e novas rotas
A Operação Lava Jato representou mais uma mudança abrupta no trajeto. Obras foram paralisadas, contratos cancelados e o segmento de construção de grandes obras praticamente estagnou. Mais uma vez, foi preciso decidir: parar no acostamento ou recalcular a rota.
A resposta veio com os aplicativos de transporte. Os irmãos passaram a atuar como frotistas, alugando veículos para motoristas logo no início da Uber em São Paulo. “Jamais imaginávamos que, alguns anos depois, teríamos a nossa própria plataforma”, admite Leandro. Com a entrada das grandes locadoras, a partir de 2017, o modelo perdeu competitividade — e a necessidade de reinvenção voltou ao painel de direção.
A virada e o nascimento da Autonomoz
A virada veio com o setor ferroviário, mas em operações tradicionais de transporte de pessoal dessas companhias, com a empresa Rhyno. Já a Autonomoz é fundada na sequência, nascendo como centro de controle para essas operações da Rhyno, que substituíram 32 empresas. A operação cresceu rapidamente, exigindo tecnologia embarcada, monitoramento constante e um centro de controle 24 horas. Assim foi criada a Autonomoz — primeiro como centro de controle, e na sua expansão depois disso como uma plataforma completa de mobilidade corporativa.
“O projeto com a ferrovia substituiu 32 fornecedores. Entregamos mais do que prometemos e resolvemos os problemas do cliente”, resume Maurício. Para os irmãos, o cliente é quem sustenta o negócio. “Muita gente acha que o empresário não tem patrão. Mas tem, sim: é o cliente”, reforça Leandro.
Tecnologia no painel, pessoas no comando
Hoje, a Autonomoz opera em mais de 175 cidades, em 14 estados, com quase mil motoristas parceiros ativos. São mais de dois mil passageiros transportados por mês e mais de 220 mil viagens realizadas em 2025. A expectativa é encerrar o ano com receita de R$15 milhões, crescimento de 18%. Esse valor representa o “take rate” e é a principal fonte de receita para esse modelo de negócio, funcionando como um custo de intermediação para conectar as duas pontas do negócio (motoristas e a empresa). A Autonomoz presta serviços para grandes empresas como a Rumo Logística, Raizen, Grupo Votorantim (Cimentos, Nexa, Auren e CBA), entre outras.
As operações se sustentam em quatro pilares: eficiência, economia, sustentabilidade e segurança. A Autonomoz foi pioneira no uso de videotelemetria embarcada em veículos de aplicativo, com um Centro de Segurança Operacional ativo 24 horas. Ainda assim, os fundadores reforçam que tecnologia nenhuma substitui pessoas alinhadas e comprometidas.
Dois irmãos, o mesmo destino
A sociedade entre Leandro e Maurício é um dos principais ativos da empresa. Unidos desde a infância, da mesma geração e com decisões sempre compartilhadas, eles seguem dirigindo o negócio com confiança mútua. “O empreendedorismo é muita porrada e algumas alegrias. Por isso, a confiança é essencial”, resume Leandro.
Depois de mais de duas décadas na estrada, os irmãos seguem olhando para frente. “A gente foi pra onde ninguém ia”, diz Leandro. E é com essa mesma disposição para pegar caminhos pouco explorados que novas ideias já aguardam o sinal verde para sair do papel
Foto: da esq. para a direita: Mauricio e Leandro – Autonomoz
Créditos: Divulgação Autonomoz