Da inteligência artificial à evasão universitária, os desafios da formação de engenheiros no Brasil apontam para a necessidade de um novo modelo educacional
Joel Cordeiro Júnior*
Mais da metade dos estudantes de engenharia no Brasil abandona o curso antes da formatura. Estimativas indicam que entre 50% e 70% dos alunos desistem da graduação — um dos maiores índices de evasão do ensino superior no Brasil.
O dado se torna ainda mais preocupante quando confrontado com outra realidade: o país precisa de mais engenheiros. A Confederação Nacional da Indústria estima um déficit atual de cerca de 75 mil profissionais, enquanto projeções do Confea indicam que o Brasil poderá precisar de até 1 milhão de novos engenheiros até 2030.
Temos, portanto, uma contradição evidente. O país precisa ampliar sua capacidade de inovação, infraestrutura e competitividade industrial justamente quando enfrenta dificuldades para formar os profissionais responsáveis por esse processo.
Ao mesmo tempo, a própria engenharia passa por uma profunda transformação. Inteligência artificial, digitalização industrial e cadeias produtivas globais estão redesenhando o trabalho técnico em praticamente todos os setores da economia. Sistemas automatizados já executam tarefas antes restritas a especialistas, enquanto novos desafios exigem soluções cada vez mais complexas.
Nesse cenário, dominar ferramentas técnicas continua essencial — mas já não é suficiente. O engenheiro do século XXI precisa combinar conhecimento técnico com competências humanas sofisticadas. Pensamento crítico, criatividade, capacidade de adaptação e tomada de decisão tornaram-se habilidades cada vez mais valorizadas. O relatório Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, indica que quase metade das competências profissionais atuais deverá mudar até o fim da década. Organizações buscam cada vez mais profissionais capazes de aprender continuamente e de atuar em contextos de rápida transformação tecnológica.
É nesse ambiente que ganha força o conceito de Educação 5.0. Diferentemente dos modelos tradicionais, centrados na transmissão de conteúdo, essa abordagem coloca o estudante no centro do processo formativo. Mais do que incorporar tecnologia às salas de aula, propõe integrar inovação digital, metodologias ativas e desenvolvimento socioemocional.
O objetivo deixa de ser apenas transmitir conhecimento e passa a ser formar profissionais capazes de compreender problemas complexos e construir soluções relevantes para a sociedade.
Essa mudança exige repensar profundamente a formação em engenharia. Currículos excessivamente fragmentados e distantes da realidade profissional contribuem para a evasão e, muitas vezes, formam profissionais pouco preparados para enfrentar os desafios contemporâneos.
Hoje, projetos industriais envolvem equipes multidisciplinares, integração digital de processos e decisões tomadas em ambientes de alta incerteza. O engenheiro contemporâneo precisa dominar tecnologias avançadas — mas também liderar equipes, comunicar ideias e tomar decisões estratégicas.
Reformular a formação em engenharia deixou de ser apenas uma necessidade educacional. É uma escolha sobre o tipo de país que o Brasil pretende ser no futuro.
Joel Cordeiro Júnior é mestre em Ciências Ambientais, especialista em gestão de processos industriais, Black Belt em Lean Six Sigma e doutorando em Engenharia Química. Coordenador do curso de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia e da Academia Lean da Faculdade Donaduzzi (Biopark-PR).