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O próximo desafio da medicina brasileira começa depois do diploma

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O próximo desafio da medicina brasileira começa depois do diploma

Por Laura Pazzini (*)

O Brasil vive uma transformação importante na medicina. Nunca discutimos tanto a formação de novos profissionais, abertura de cursos, qualidade das universidades e necessidade de ampliar o número de especialistas. Mas talvez estejamos chegando ao momento de fazer uma pergunta diferente: o que acontece com o médico depois que ele recebe o diploma? A expansão da formação é uma realidade. Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, o Ministério da Educação deferiu 1.199 novas vagas em cursos de Medicina. Ao mesmo tempo, os primeiros resultados do Enamed trouxeram um alerta: cerca de 30% dos cursos avaliados apresentaram desempenho considerado insatisfatório.

Esses números não devem servir para desqualificar uma geração de médicos. Seria uma simplificação injusta. Eles devem servir para aperfeiçoarmos o sistema.

Medicina nunca foi uma profissão que termina na graduação. O diploma é, na realidade, o início de uma longa jornada de residência, especialização, provas de título, atualização científica e desenvolvimento permanente. O próprio poder público parece reconhecer esse desafio. Em 2026, o Ministério da Saúde anunciou mais de 3 mil novas bolsas de residência. Com a expansão da política federal, mais de 60% dos residentes médicos do país passaram a contar com financiamento do governo. É um avanço relevante. Mas residência, universidade e políticas públicas não precisam enfrentar sozinhas desafio dessa dimensão.

Há espaço para construirmos um ecossistema de formação continuada que envolva instituições de ensino, hospitais, sociedades médicas e também novas soluções de educação e tecnologia.

Convivo diariamente com médicos em diferentes momentos dessa trajetória e uma coisa ficou clara para mim: não sofremos por falta de informação. Sofremos, muitas vezes, pelo excesso dela sem direcionamento. Hoje, um médico tem aulas, artigos, livros, vídeos, bancos de questões e conteúdos científicos disponíveis praticamente o tempo inteiro. O novo desafio da educação deixou de ser simplesmente entregar conteúdo. Precisamos ajudar cada profissional a entender o que precisa aprender, onde estão suas lacunas, como organizar seu estudo e como medir sua evolução.
É aí que acredito que tecnologia, dados, inteligência artificial e, paradoxalmente, uma relação mais humana de mentoria podem fazer diferença.

Imagine uma formação capaz de identificar padrões de erro, reconhecer dificuldades individuais, adaptar cronogramas, recomendar conteúdos e acompanhar a evolução de cada médico ao longo do tempo. Não se trata de substituir professores. Muito menos universidades, residências médicas ou sociedades de especialidade. Trata-se de usar novas ferramentas para potencializar aquilo que elas já fazem.

Também precisamos abandonar a ideia de que educação médica existe apenas até a obtenção de um título. A velocidade com que conhecimento, tecnologia, protocolos e possibilidades terapêuticas evoluem tornou a aprendizagem permanente parte do próprio exercício da profissão. Eu mesma percorri essa jornada como estudante, residente e médica antes de escolher a educação como atividade profissional. Talvez por isso enxergue esse problema menos como uma questão de mercado e mais como uma responsabilidade.

Porque existe algo que não podemos esquecer quando discutimos formação médica. Na outra ponta de todo esse processo existe um paciente. Melhorar a formação, facilitar o acesso à especialização, individualizar o aprendizado e utilizar tecnologia para desenvolver profissionais melhores não beneficia apenas o médico. Beneficia quem um dia estará diante dele. O Brasil avançou muito na discussão sobre quantos médicos queremos formar. O próximo salto precisa responder a uma pergunta mais difícil: como queremos formar os médicos de que o país precisará nas próximas décadas?

(*) Dra. Laura Pazzini é médica com formação em Oftalmologia. Após atuar na formação e mentoria de médicos, passou a dedicar sua carreira à educação médica, à gestão e ao desenvolvimento de soluções voltadas à especialização e qualificação profissional.

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