Inmetro emitiu alerta após registros de acidentes e recomenda atenção à procedência, faixa etária e forma de uso; cortar, furar ou aquecer o brinquedo pode aumentar os riscos
Coloridos, macios, perfumados e feitos para apertar. Os chamados squishies conquistaram crianças e adolescentes e se multiplicaram em lojas e vídeos nas redes sociais. A aparência divertida, no entanto, não elimina a necessidade de alguns cuidados, principalmente quando o brinquedo chega às mãos de crianças pequenas.
No início de outubro, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) publicou um alerta específico sobre esses produtos depois de registros recentes de acidentes, inclusive no Brasil. A orientação não é para deixar de brincar com squishies, mas para respeitar a finalidade do produto: eles não devem ser aquecidos, cortados, perfurados ou abertos.
A pediatra Sheron Luize Costa de Carvalho, do Hospital Angelina Caron, chama atenção para uma diferença importante entre o uso normal do brinquedo e situações capazes de transformá-lo em risco. “O squishy não precisa ser encarado pelos pais como um brinquedo perigoso por si só. O cuidado está em escolher um produto adequado à idade da criança, verificar sua procedência e observar como ele está sendo usado. Para os menores, a atenção precisa ser ainda maior porque existe uma tendência natural de levar objetos à boca”, explica a pediatra.
Essa preocupação é especialmente importante até os três anos. Pelas regras adotadas pelo Inmetro, brinquedos destinados a essa faixa etária não podem apresentar partes pequenas que possam ser engolidas, justamente porque as crianças estão na chamada fase oral.
Cortar o squishy para ver o que tem dentro pode ser perigoso
Uma parte do alerta atual está relacionada a comportamentos que ganharam espaço nas redes sociais. Vídeos mostram squishies sendo cortados, furados, desmontados ou até colocados no micro-ondas como forma de experiência ou brincadeira. É aí que um produto projetado para ser apertado passa a ser utilizado fora das condições previstas.
Ao romper o brinquedo, podem surgir pequenos fragmentos e ocorrer vazamento do material interno. Dependendo do produto, o conteúdo pode ser gel, líquido, espuma ou outro tipo de preenchimento. Pedaços que se desprendem podem representar risco de engasgo, especialmente para crianças menores. O Inmetro também alerta que o aquecimento pode deformar o material e favorecer vazamentos, além do risco de queimaduras.
“Se o brinquedo rasgou ou começou a liberar o conteúdo interno, a orientação é retirar imediatamente do alcance da criança. Não vale tentar fechar com cola ou fita para continuar usando. Também é importante ensinar os maiores, que experiências vistas em vídeos não devem ser reproduzidas simplesmente porque parecem divertidas”, orienta Sheron.
Cheiro de doce e formato de comida merecem atenção
Há ainda uma característica particular de alguns squishies: eles parecem alimentos. Cupcakes, frutas, sorvetes e outros doces aparecem entre os formatos, muitas vezes acompanhados de aromas adocicados. Para uma criança pequena, essa combinação pode aumentar a curiosidade e a vontade de colocar o objeto na boca. O material enviado para elaboração do alerta destaca justamente que modelos com aparência ou aroma de alimentos exigem supervisão mais cuidadosa e respeito à indicação etária.
“Os pais precisam observar a criança, e não apenas o brinquedo. Se ela ainda morde objetos, tenta arrancar partes ou costuma levar tudo à boca, a supervisão deve ser constante. Um produto adequado para uma criança maior não é necessariamente seguro para uma menor”, afirma a pediatra.
O que olhar antes de comprar
No Brasil, brinquedos abrangidos pela regulamentação devem atender aos requisitos estabelecidos pelo Inmetro. A Portaria nº 302/2021 prevê certificação compulsória e requisitos técnicos para a comercialização desses produtos no país.
Na prática, os pais podem fazer uma primeira checagem ainda na loja. O Inmetro recomenda observar a procedência, comprar no mercado formal e conferir o Selo de Identificação da Conformidade, além da identificação do fabricante ou importador. A embalagem deve trazer indicação de faixa etária, advertências e instruções de uso em português.
A certificação, porém, não significa que qualquer uso seja seguro. Ela considera as condições previstas para aquele brinquedo. Colocá-lo no forno ou micro-ondas, cortá-lo para descobrir seu conteúdo ou modificá-lo são situações que fogem dessa avaliação.
Quando é hora de jogar fora
Não basta conferir o produto na compra. Como os squishies são constantemente apertados e manipulados, o estado de conservação deve ser observado ao longo do tempo. O Inmetro recomenda interromper o uso diante de rasgos, furos ou fissuras, vazamento de gel ou líquido, partes se desprendendo, superfície excessivamente pegajosa ou oleosa ou odor químico muito forte. “Brinquedo infantil precisa ser revisto de tempos em tempos. Se mudou de textura, está rompendo, soltando pedaços ou vazando alguma substância, deve sair da brincadeira. Com crianças pequenas, um fragmento que para um adulto parece insignificante pode representar risco de engasgo”, alerta Sheron.
E se a criança engolir um pedaço?
Engasgo, ingestão do conteúdo, contato com os olhos ou uma reação após exposição ao material são situações que exigem atenção dos responsáveis.
“Se houver engasgo com dificuldade para respirar, se a criança ficar roxinha (cianose), perda de consciência ou outro sinal de comprometimento respiratório, é uma emergência e o atendimento deve ser imediato. Se a criança ingerir parte do brinquedo ou seu conteúdo, os responsáveis não devem provocar vômito nem oferecer substâncias ou receitas caseiras. O ideal é procurar orientação médica e, se possível, levar a embalagem ou as informações do produto para ajudar na avaliação”, orienta a pediatra.
Nos casos de contato do conteúdo interno com os olhos, a pele ou a boca, a primeira medida é lavar o local com água corrente em abundância. Depois, a conduta dependerá do material envolvido e dos sintomas apresentados. Irritação persistente, queimadura, vômitos, dificuldade respiratória, sonolência ou qualquer alteração importante no estado da criança justificam avaliação médica.
Além da assistência à criança, acidentes ou incidentes relacionados ao produto podem ser registrados no Sistema Inmetro de Monitoramento de Acidentes de Consumo (Sinmac). Os relatos ajudam o órgão a identificar produtos e situações que possam representar riscos e podem subsidiar ações regulatórias e de fiscalização.
O principal cuidado, segundo Sheron, é não transformar a preocupação em proibição indiscriminada. “A brincadeira faz parte da infância. Nosso papel como adultos é criar condições para que ela aconteça com segurança. Escolher um brinquedo adequado à idade, acompanhar o uso e perceber quando aquele produto já não está em boas condições são atitudes simples que ajudam a prevenir acidentes”, conclui.