Por Jonsue Trapp Martins
Estamos novamente diante de uma eleição para o Governo do Paraná. E, como acontece a cada quatro anos, começam as promessas, os compromissos e os discursos sobre aquilo que cada candidato pretende fazer caso chegue ao Palácio Iguaçu.
Mas existe uma pergunta que o eleitor precisa fazer antes de acreditar em qualquer discurso: há coerência entre aquilo que o candidato diz hoje e aquilo que defendeu ou fez ontem?
Não se trata de escolher um candidato. Trata-se de cobrar de todos o mesmo critério. No debate sobre a Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação do Paraná (Celepar), essa questão fica particularmente evidente.
Em sabatina recente, Sandro Alex afirmou que o Paraná precisa garantir a soberania sobre seus dados e defendeu que “o data center tem que ser soberano” e que as informações precisam estar “dentro da soberania nacional”.
A declaração merece ser levada a sério. Mas também merece uma pergunta elementar: o Paraná já não possui uma estrutura própria de data center dentro da Celepar?
A companhia construiu, ao longo de décadas, infraestrutura tecnológica para sustentar sistemas e serviços estratégicos do Estado. Se soberania digital é necessária — e acredito que seja —, não seria mais lógico discutir como fortalecer essa estrutura do que admitir a possibilidade de privatizar a empresa que a abriga?
A questão ganha ainda mais importância porque, na mesma sabatina, Sandro Alex defendeu as privatizações da Copel e da Celepar e afirmou que a modernização não é responsabilidade exclusiva do Estado.
É aí que começa o teste de coerência.
Se precisamos de soberania sobre os dados, quem controlará essa infraestrutura depois de uma eventual privatização? Quem terá acesso às informações? Quais serão as garantias? E qual será o custo para o cidadão? Não basta dizer “data center soberano”. É preciso explicar quem será o dono, quem administrará e como o Estado manterá sua capacidade de controle.
O que aprendemos com as privatizações?
A defesa da privatização costuma vir acompanhada de três argumentos: eficiência, redução de custos e melhoria dos serviços.
Mas a experiência internacional mostra que privatizar não é sinônimo automático de eficiência. Levantamento do Transnational Institute identificou mais de 1.400 processos de retomada de serviços públicos, em mais de 2.400 cidades de 58 países. Entre os motivos aparecem problemas de qualidade, custos, transparência e perda de controle público.
Isso não significa que toda privatização dê errado. Seria intelectualmente desonesto afirmar isso.
A pergunta correta é outra: qual é a evidência de que determinada privatização produzirá um serviço melhor?
O Paraná deveria fazer essa pergunta antes de avançar sobre novos ativos estratégicos.
A Copel, por exemplo, deixou de ser controlada pelo Estado em 2023. A defesa do processo foi construída em torno de modernização, eficiência e capacidade de investimento. Mas o cidadão pode perguntar: o que mudou na prática?
Uma empresa de serviço essencial não deve ser avaliada apenas pelo valor das ações ou pelos resultados financeiros. É preciso considerar qualidade do atendimento, continuidade do serviço, investimentos, tarifas e capacidade de resposta ao consumidor.
Também é preciso separar os fatos. A Copel continua apresentando indicadores positivos em determinadas áreas, inclusive tendo recebido, em 2026, pela sexta vez, reconhecimento da Aneel para sua ouvidoria. Portanto, não cabe construir uma narrativa baseada apenas em experiências negativas de consumidores.
Mas justamente por isso precisamos exigir mais dos candidatos: indicadores, metas e resultados concretos.
A experiência da Copel Telecom deixa uma questão política importante: quando o Estado vende uma infraestrutura estratégica, perde também o controle direto sobre o futuro daquele ativo. A antiga empresa pública pode mudar de mãos, de estratégia, de nome e de estrutura.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas quanto o Estado recebe no dia da venda. É preciso perguntar: quanto vale para o Paraná manter o controle de uma infraestrutura estratégica durante as próximas décadas?
Sérgio Moro apresenta outra abordagem. Em declarações sobre a Celepar, defende um “choque de eficiência e gestão”, mas também critica a forma como o processo de privatização foi conduzido e questiona a própria legislação aprovada para viabilizá-lo.
Se o problema é gestão, quais mudanças seriam feitas? Se o problema é o modelo jurídico, qual seria a alternativa? E, principalmente, qual seria o destino da Celepar sob um eventual governo Moro?
Requião Filho apresenta uma posição diferente. O candidato critica as privatizações promovidas pelo governo Ratinho Junior e defende a reversão de processos como o da Copel.
Também aqui é preciso cobrar mais do que uma declaração de campanha.
Como seria feita essa reversão? Quanto custaria? Quais contratos precisariam ser revistos? Quais seriam os efeitos jurídicos e financeiros? Prometer privatizar é fácil. Prometer reestatizar também. Explicar como fazer é muito mais difícil.
E as promessas de Ratinho Junior?
Antes de acreditar nas novas promessas, devemos olhar para as anteriores.
Levantamento do projeto Promessas dos Políticos, do G1, divulgado em julho de 2026, apontou que Ratinho Junior cumpriu integralmente 17 das 26 promessas monitoradas de sua campanha de 2022 — 65% do total. Cinco permaneciam sem conclusão e quatro tinham cumprimento parcial. O balanço, portanto, não permite dizer que “tudo foi cumprido”, mas também não sustenta a afirmação de que “nada foi feito”.
Há entregas, há compromissos parcialmente realizados e há promessas pendentes. Esse deveria ser o padrão de cobrança para todos os candidatos.
Antes de ouvir uma nova promessa, o eleitor deveria abrir a anterior. Porque governar não é apenas anunciar boas notícias. É tomar decisões, assumir consequências e prestar contas.
A Celepar é maior do que uma disputa eleitoral Como dirigente sindical dos trabalhadores de tecnologia, não posso olhar para a Celepar apenas como uma empresa. Ali estão profissionais especializados, conhecimento acumulado, sistemas críticos, infraestrutura, bancos de dados e décadas de experiência em tecnologia pública.
O debate não pode ser reduzido à velha discussão entre “Estado grande” e “Estado pequeno”. Estamos falando de Estado capaz. Um Estado que consiga proteger seus dados, desenvolver tecnologia, fiscalizar contratos e não ficar completamente dependente de empresas privadas para executar funções essenciais.
Se um candidato defende um data center soberano, precisamos perguntar por que não começa fortalecendo o data center que o Paraná já possui. Se outro defende um choque de gestão, precisamos saber qual gestão pretende implementar. Se outro promete reverter privatizações, precisamos saber como fará isso e quanto custará.
E se alguém defender a continuidade do modelo atual, deve apresentar os resultados e assumir também aquilo que não foi entregue.
Essa é a verdadeira coerência.
Não precisamos avaliar candidatos apenas pelo discurso. Precisamos confrontar o discurso com a história, a promessa com o orçamento e a declaração com aquilo que já foi feito. No caso da tecnologia pública, há uma responsabilidade ainda maior. Dados não são uma mercadoria comum. São informações de cidadãos, empresas, servidores, pacientes, estudantes e instituições públicas.
Quando falamos em Celepar, falamos também de soberania digital E soberania não se promete em uma sabatina. Soberania se constrói, se protege e, principalmente, se preserva.
Jonsue Trapp Martins
Diretor do Sindicato dos Empregados em Informática e Tecnologia da Informação do Paraná (SINDPD-PR)