Idealizado pelo médico nefrologista Dr. Paulo Fraxino e seus filhos, o instituto pretende transformar mais de três décadas de experiência no atendimento renal em projetos permanentes de acolhimento, prevenção e qualidade de vida
Mais de 173 mil brasileiros dependem atualmente de diálise para viver. No Paraná, são mais de 9 mil pessoas submetidas ao tratamento. Por trás desses números, porém, existem pacientes e famílias que enfrentam uma realidade que ultrapassa os limites da assistência médica: mudanças na rotina, dificuldades de deslocamento e alimentação, impactos emocionais, perda de autonomia e insegurança em relação ao futuro.
Foi da convivência diária com essa realidade, ao longo de mais de três décadas, que nasceu o Instituto ADORE — Instituto de Amparo ao Doente Renal, instituição sem fins lucrativos fundada pelo médico nefrologista Dr. Paulo Henrique Fraxino e por seus filhos, Lívia Fraxino e Bernardo Fraxino, sócios diretores da agência ATT, especializada em marketing médico.
“A proposta é ampliar o olhar sobre a doença renal crônica e oferecer suporte às diferentes dores enfrentadas por quem convive com a condição, sendo elas físicas, emocionais, sociais, familiares e econômicas”, afirma Dr. Paulo Fraxino, presidente do Instituto.
Ao longo de mais de 30 anos cuidando de pessoas com doença renal, Dr. Paulo conta que aprendeu que tratar os rins é apenas uma parte do seu trabalho. “A doença crônica entra na casa do paciente, modifica a dinâmica da família, interfere no trabalho, nos projetos e na autonomia. O ADORE nasce da percepção de que precisamos cuidar também de tudo aquilo que existe ao redor do tratamento”, ressalta o médico.
Um problema crescente de saúde pública
A criação do ADORE ocorre em um cenário de crescimento da demanda por terapia renal substitutiva no Brasil. Segundo o Censo Brasileiro de Diálise 2025, da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), o país ultrapassou a marca estimada de 173 mil pacientes em tratamento dialítico. A própria SBN destaca que a população em diálise crônica continua crescendo e que os dados são fundamentais para o planejamento da assistência e das políticas públicas de saúde renal.
De acordo com os dados do levantamento, são estimados 173.408 pacientes em diálise no Brasil, o equivalente a 813 pacientes por milhão de habitantes. Em 2016, eram cerca de 122,8 mil. Somente em 2025, aproximadamente 46,6 mil brasileiros teriam iniciado tratamento dialítico.
No Paraná, a estimativa é de 9.068 pessoas em diálise, com cerca de 2.236 novos pacientes iniciando o tratamento ao longo de 2025.
Outro dado revela a dimensão do desafio para o sistema público: 83% dos pacientes brasileiros em diálise têm o Sistema Único de Saúde (SUS) como fonte pagadora.
“Quando falamos em mais de 173 mil pessoas em diálise, não estamos falando apenas de um indicador epidemiológico. Estamos falando de milhares de famílias que reorganizam a vida em torno de um tratamento contínuo. A diálise mantém vidas, mas precisamos olhar para a qualidade dessa vida, para a autonomia e para a dignidade de quem depende dela”, destaca Fraxino, que também é vice-presidente da Região Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia e vice-presidente regional Paraná da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante.
Da experiência assistencial ao Instituto
A origem do ADORE está diretamente relacionada à trajetória da Clínica Renal Iraty, referência em assistência nefrológica aos municípios que integram a 4ª Regional de Saúde do Paraná.
Ao longo dos anos, a instituição passou a desenvolver iniciativas que extrapolam a assistência convencional. Entre elas estão projetos de atividade física durante a hemodiálise, cuidados paliativos em nefrologia, segurança do paciente, acesso vascular, educação de pacientes e familiares, sustentabilidade ambiental, prevenção da doença renal e humanização do atendimento.
O projeto CRIatividade, por exemplo, estimula exercícios durante o tratamento. Outras iniciativas incluem o Programa de Cuidados Paliativos em Nefrologia, a Força-Tarefa de Acesso Vascular e o Código Azul, direcionado à preparação das equipes para situações de emergência.
Grande parte dessas ações foi construída até agora com a dedicação e a doação de tempo e conhecimento dos próprios profissionais. A criação do Instituto pretende dar estrutura para que esses projetos ganhem continuidade, escala e novas fontes de financiamento.
“O ADORE não começa do zero. Ele nasce de um trabalho que já acontece e da dedicação de muitas pessoas. O que queremos agora é transformar boas iniciativas em programas estruturados e permanentes, criar parcerias e ampliar nossa capacidade de chegar a mais pacientes e famílias”, explica o nefrologista.
Prevenir antes que a diálise seja necessária
Uma das frentes que deverá ocupar espaço decisivo na atuação do Instituto é a prevenção da doença renal crônica e o incentivo ao diagnóstico precoce.
A DRC pode evoluir durante anos sem apresentar sintomas evidentes. Diabetes e hipertensão estão entre suas principais causas e, segundo os dados apresentados pelo Censo SBN 2025, representam, respectivamente, 30% e 27% dos diagnósticos de base entre pacientes em diálise.
Para Fraxino, esse caráter silencioso torna a informação uma ferramenta essencial. “Se esperarmos o aparecimento dos sintomas, podemos estar chegando tarde. Pessoas com diabetes, hipertensão, obesidade, doença cardiovascular, histórico familiar de doença renal e outros fatores de risco precisam avaliar periodicamente a saúde dos rins. Exames relativamente simples podem identificar alterações quando ainda temos oportunidade de intervir e retardar a progressão da doença.”
O desafio, portanto, ocorre em duas frentes: impedir, sempre que possível, que a doença avance até a necessidade de terapia renal substitutiva e oferecer assistência integral àqueles que já dependem dela.
Cuidado que ultrapassa as paredes da clínica

A atuação do Instituto ADORE deverá abranger assistência social, educação em saúde, prevenção, promoção da qualidade de vida, apoio aos pacientes e familiares, capacitação profissional, inovação e defesa do acesso a um atendimento digno, seguro e humanizado.
A participação dos filhos Lívia e Bernardo Fraxino na fundação do Instituto acrescenta ainda um caráter familiar e geracional à iniciativa. Para Paulo Fraxino, o projeto representa a transformação de uma experiência construída durante décadas na medicina em um legado para a comunidade.
“A medicina nos ensina a tratar doenças, mas a convivência com os pacientes nos ensina algo ainda maior: cuidar de uma pessoa com uma condição crônica significa conhecer sua história e compreender aquilo que ela precisa para continuar vivendo com dignidade. O ADORE nasce para ajudar a preservar autonomia, vínculos, projetos e esperança.”
Dr. Paulo Henrique Fraxino é médico nefrologista, vice-presidente da Região Sul da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), vice-presidente regional Paraná da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT) e presidente do Instituto ADORE — Instituto de Amparo ao Doente Renal.