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Consequências não tão óbvias da guerra

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Consequências não tão óbvias da guerra

João Alfredo Lopes Nyegray*

Em 24 de fevereiro deste ano, contrariando muitas previsões e especulações, os russos invadiram a Ucrânia numa guerra de agressão que nos trouxe imagens tenebrosas. Hoje, quase dois meses após o início do conflito, marca-se também dois meses que ouvimos que  “Kiev cairá para os russos em três dias”. Tão surpreendente quanto a força, a moral e a resistência dos ucranianos, só as horripilantes imagens provenientes da cidade de Bucha e das demais cidades tomadas pelos russos.

Homens, mulheres, crianças e idosos amarrados com as mãos nas costas, e indícios de tiros na nuca. Relatos de estupro, tortura e repressão de todo o tipo. Uso de minas terrestres, muitas das quais amarradas aos corpos dos mortos. Nas definições das Nações Unidas – aprovadas pela primeira vez como Princípios de Nuremberg – e de acordo com o Estatuto de Roma, são claros crimes contra a humanidade e crimes de guerra.

Todas essas violações e agressões tornaram a Rússia a nação mais sancionada do mundo. Ainda que muitas das penalidades tenham origem após a invasão da Crimeia de 2014, os últimos dois meses trouxeram também uma infinidade de novas restrições. Enquanto cerca de 3.600 medidas punitivas pesam contra o Irã, e aproximadamente 2.600 contra a Síria, Moscou contabiliza perto de 6 mil sanções.

Grande exportadora de petróleo e gás, a Rússia sempre teve nesses itens sua grande vantagem geoestratégica. Ao abastecer os países europeus, os russos utilizaram suas vantagens energéticas como forma de fazer valer sua vontade contra eventuais sanções internacionais. Hoje, por outro lado, o mundo se fecha aos produtos russos. A Alemanha encerrou as atividades do gasoduto que ligava seu país à Rússia, a União Europeia está comprometida em buscar novas fontes de recursos e os EUA seguem utilizando suas reservas de petróleo, e reduzindo as compras de tudo o que vinha dos russos. É notório: Vladmir Putin conseguiu perder uma das maiores vantagens estratégico-comerciais de seu país.

Essa é a consequência óbvia. O barril de petróleo, como temos acompanhado, superou seu valor máximo em mais de uma década. Os preços da gasolina e do diesel também dispararam no Brasil. A inflação global tende a continuar crescendo no decorrer deste ano. Não tão óbvias são as demais consequências desse conflito, em especial aquelas causadas pelo desabastecimento global de produtos anteriormente supridos pelos russos.

Os peruanos, por exemplo, tiveram toque de recolher decretado em Lima e nas demais grandes cidades do país no início de abril. A ideia é conter os protestos pela alta da inflação, que fez disparar o preço dos combustíveis (a consequência óbvia) e dos alimentos – em especial do pão. O país, tal qual tantos outros, é dependente de trigo e fertilizantes vindos da Ucrânia e da Rússia. Essa situação deixa nossos vizinhos numa situação ainda mais delicada do que já estavam em virtude da instabilidade política. O governo de Pedro Castillo sofreu dois processos parecidos com o impeachment em oito meses.

O Oriente Médio e a África são igualmente dependentes do trigo e do milho ucraniano, para onde vai boa parte das exportações do país invadido. Com a queda na oferta, a alta nos preços vem afetando consumidores e agravando problemas de fome. Na Ásia, Sri Lanka e Paquistão passam por intensas crises econômicas e políticas, e os governos desses países mostram-se cada vez menos capazes de cumprir suas obrigações financeiras.

O Brasil, altamente dependente de fertilizantes externos, em especial vindos da Rússia e de Belarus, já retoma planos para a produção nacional desse insumo tão importante para nosso agronegócio. Infelizmente, no entanto, os resultados desse planejamento ficarão para longo prazo. É possível, embora não desejável, que os alimentos por aqui sigam a alta de preços que ocorre pelo mundo. Dentre as consequências não tão óbvias, a mais evidente é que não há como se esconder das Relações Internacionais.

*João Alfredo Lopes Nyegray é coordenador do curso de Comércio Exterior e professor de Geopolítica e Negócios Internacionais da Universidade Positivo.

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